Letter from Diana (# 1).

«Hoje propus-me a pensar no ser humano enquanto um puro existencialista carnal. Acabei por não chegar a qualquer conclusão como me é tão característico nas minhas considerações metafísicias. No entanto, no processo, bebi um golo de vinho tinto, fumei um tabaco de enrolar, toquei no meu piano uma peça de Bach e apreciei o classicismo de toda a realidade nominal.

Estive também com ideias de reflectir sobre a questão fundamental da vida e o porquê da existência da morte. Ainda não encontrei o segredo do espanto mortal quando eu me refiro em conversas sobre o facto de não ter medo do derradeiro fim. Afinal de contas, tal como me disseste é um fardo incontornável. Já que terei que apresentar fobias em toda a minha vida, ao menos que não tenha pavor daquilo que porá fim a esta.

Retomei a consciência, porventura já cansada do rodopio de emoções ensonadas. A carnalidade humana voltou à mente lasciva. Como que num laivo de coerência percebi que o Homem não poderá ser nunca monogamicamente fiel. A fidelidade pertence às espécies inferiores. Enquanto seres superiores somos obrigados a amar todos, a consumir todos (e talvez tudo) e a desejar todos os que nos rodeiam. Como poderei eu ser fiel a uma pessoa se o Mundo me suplica que o ame por inteiro?

Hoje cometi o erro de te amar novamente. Estava a pensar debruçada sobre o cravo da nossa sala opulenta. O pó acentava sobre a cabeceira da mesa que se situava exactamente à esquerda da escrivaninha onde costumas escrever os teus romances (é verdade, mudeia-a de sítio esperando que não te importes). Debrucei-me. Respirei o pó. Senti o teu cheiro a invadir o meu ser. Nessa altura o vinho já não me fazia companhia e o salgado das lágrimas contrastava com a doçura de todo o teu olhar, imaginado. Revolta-me o escárnio individual que tu tão levemente me provocas mas que se acumula como as rugas que agora apresento na testa.

Vou-me deitar, amor. Piada que as palavras actualmente já não tomem a forma que um dia supus virem a tomar na nossa relação. Acredito que fui violada por uma curiosidade infantil ao ver-te na esquina da rua a falares com as meretrizes da vida capitalista. A morte, pela primeira vez começa a criar-me medo. Não direi que te amo, não. Sinto que há muito já perdi esse sentimento nas ruas da desgraça, por entre folhos de amargura. Hoje olho para ti e apenas sei que devo estar onde estou. Eu, o vinho, o piano e o tabaco de enrolar. Lá para as três da manhã chegarás tu.»

 

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A verdade nem sempre é verossímil. Portanto habitua-te à ideia de que eu nem sempre por ser, tenho, obrigatoriamente, que existir.

~ by marlonfrancisco on February 24, 2008.

2 Responses to “Letter from Diana (# 1).”

  1. A ideia está amazing.
    Espero que saibas que tenho opinião formada sobre este post mas é-me complicado passar para a escrita. Dir-te-ei mais tarde acho eu.

  2. acho que a ideia esta excelente,mas considero que em termos de caracter das personagens elas sao muito iguais. o tipo de linguagem, o ser e estar na vida… se me lesses os textos em separqado eu nao perceberia que exitiam duas personagens.
    Tenta fazer isso. Abraços

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