Letter from André (# 2).
«Hoje estavas linda. Os teus caracóis louros esvoaçavam por entre os corredores bafios da nossa escola. Falavas, rias, choravas com os teus colegas. A felicidade que emanava de ti dava-me vontade de subir à montanha mais alta, cheirar o malmequer mais trivial, rebolar na relva mais verde, gritar até ficar sem voz e, no fim de toda esta loucura desenfreada, sussurrar baixinho com um riso entre os dentes que realmente és a primeira pessoa de quem gosto.
Não reparaste em mim (nunca reparas, verdade seja dita). Também não sou propriamente o rapaz idealístico. Os meus óculos embaciados por gerações de uso, o meu ar franzino, o meu nariz prepotente, o meu acne detestável e, talvez até, as minhas camisas de flanela em segunda mão, não fazem de mim o miúdo mais cobiçado da zona. Passaste inclusivé por mim. Cheirei a tua fragância a framboesa, enquanto me deliciava a escutar as tuas doces palavras, embora por breves momentos. Chama-me doido, mas tu alimentas a fraqueza que tenho em mim; dás-me paz e tranquilidade.
A campainha tocou. Tu pegaste na tua mochila e preparaste-te para entrar em mais uma aula. Senti-me sórdido pelo ódio que me dilacerava por dentro cada vez que o toque soava. Seria mais uma hora e meia que não te poderia ver.
Sou acordado. ‘Despacha-te’, dizem-me. Por momentos tento reencontrar-te no meu sonho. Visto o melhor fato. Ponho o melhor perfume. Escovo o cabelo como nunca escovei. Entro no carro, ainda com cheiro a novo. À porta de tua casa a tua mãe acolhe-me de braços abertos enquanto derrama lágrimas de sangue. No canto mais escondido da sala estava o teu corpo, lânguido, imune a tudo o que o rodeava, sem respirar, sem se mexer. Agora já não cheiras a framboesa, já não falas docemente. Resta-me somente, voltar para a minha cama e sonhar, novamente, contigo. Resta-me apenas a felicidade de tempos passados.»
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Nota: Como já deverão ter reparado (ou não, embora nesse caso me veja obrigado a chamar-vos de parvos), eu estou a tentar criar uma ideia que se baseia na escrita de várias ‘cartas’ (ou desabafos, chamemos-lhe assim) por outras pessoas que não eu. Daí, o que aqui é escrito não pretende retratar aquilo que eu sinto, mas antes aquilo que qualquer pessoa, comum, poderá sentir. Em princípio será uma colectânea de 5 textos (poderá estender-se desde que eu ache devidamente interessante…).

Ai sweetie todos os meus atómos estão em extase por eu ser mencionado no titalo.
Well, a primeira parte é absolutamente genial, como duas pessoas se intersectam no mesmo ambiente mas nunca se chegam a tocar, como dois mundos completamente diferentes estão juntos fisicamente mas não mentalmente. lembra um bocado o elephant antes do massacre, há um sentimento de alienação. pelo menos foi o que eu reti dessa primeira parte.
quanto á segunda parte, sou sincero, não percebi se era sonho ou ou whatever.
on in all, a very good one.
Ta giro….
Mas porque raio tem voces (tu e carlos) de matar os personagens principais das vossas “historias” (nao sei se é o termo certo, mas é ainda assim adequado)?
Porque é que no fim de tanta coisa bonita, de tanto sentimentalismo, têm sempre que acabar as coisas com desgraça….
Credo… vou passar a ver o telejornal em vez de vir para aqui ler aquilo que voces escrevem. (joke)
uma ingenuidade, uma inocencia apaixonantes. como foi dito, há um sentido de alienação. ao mesmo tempo, de concentração. agora quem se está a perder sou eu! as atenções do André, viradas apenas para aquela criatura que estava linda, tornando-a musa, razão do seu ser. uma prisão, enquanto vive num mundo enevoado. era isto que queria transmitir, sim. um mundo enevoado para o André, cuja única figura focada era a que hoje estava linda.
é retrato de amor sincero, ou amor obsessivo, ou amor de infância, ou amor inocente, ou simplesmente de amor. fascínio? muito provavelmente.
acho que me perdi nestas palavras todas. :/
outro texto muito bom.