Letter from André (# 2.1).

•May 9, 2008 • 5 Comments

     «Dez anos passaram, Cláudia. Dez anos volveram e tudo mudou. Uma eternidade de distúrbios transformaram-me. Tudo desapareceu. Em quase tudo perdi a inocência infantil daqueles corredores bafios da escola. Já nada é o que era.
    
Porém, tudo se mantém.
    
O mundo avançou, as pessoas evoluiram, eu cresci. (Quem sou eu agora?) E, no fundo, ainda me lembro de ti. Lembro-me dos teus caracóis loiros, Cláudia. Recordo-me do teu perfume, do teu toque suave, do rosado das tuas faces, dos teus lábios delineados, dos teus olhos azuis (dessa imensidão oceânica na qual eu tanto desejava naufragar), do teu nariz firme e arrebitado. As lembranças das tuas sobrancelhas finas assolam-me a memória como o Sol me aquece neste pavimento vazio e frio.

     – Por favor, minha senhora, uma esmola para eu poder comer.

     Não mo deu. Afinal, ela sabia tão bem quanto eu que não era para comida. A barba desgrenhada, as marcas nos braços, o cabelo sujo e oleoso, as roupas rasgadas pelo tempo (as mesmas camisas de flanela da juventude!), o cheiro pestilento e os sapatos cujo uso excessivo já os gastou até atingirem um êxtase de amargura; todos esses e outros traços, evidenciam a minha dependência.
    
Compro uma dose. Injecto-me. Tudo e todos parecem-me, agora, tão perfeitos, tão felizes. O mundo é belo. O meu Mundo de cartão e solidão é belo!

     Faz hoje dez anos, Cláudia. Faz hoje dez anos… e nem as flores que te coloco na campa apagam a dor que, volvida esta eternidade efémera, ainda não morreu. Na lápide lê-se “Filha, neta, sobrinha e amiga amada”. E eu que, também, te amei? Fui esquecido, porventura? Onde foi todo o amor que, um dia, tive por ti? Onde se escondeu toda a alegria que me trazias?

     Volto para o meu canto, no beco da rua de rosas murchas. O cartão é novo. Faz hoje dez anos, amor. O inferno em que vivo tornou-se intemporal. A vida, essa, desapareceu quão sonho idílico. Amo-te, para todo o sempre, amor.»

 

 

Letter from Diana (# 1.2).

•April 20, 2008 • 2 Comments

     «Faz cinco meses que te foste. Lá fora os pássaros cantam por entre folhagens maduras. As searas de trigo dançam ao sabor do vento. O chilrear do riacho borbulha entre pedras de afasia sentimental. O tabaco de enrolar já não me consome. O vinho já não é consumido. O piano, esse, continua no mesmo sítio, com as teclas gastas pelo Tempo do tempo em que a tua presença ainda me fazia falta.

     Dou por mim a pensar na metafísica humana e na sua questão da mortalidade. Todos iremos um dia. Resta saber quando. Tu já não existes num plano material, ou mesmo numa concepção astral e abstracta. A sensação de liberdade que me assola é virtuosamente vitoriosa. Arre que custou!

 

 

     – Merda que são 8 da manhã! Atrasei-me.

     Olho para o meu lado. Já não lá estás tu. Pelos vistos é tudo realidade. À minha direita está, agora, uma mesa vazia. Regozijo-me de ter deixado todos os vícios ou vicissitudes capitalistas que outrora possuira. À minha frente o piano está aberto como quem, desesperadamente, pede uma nota, ou acorde, ou um bordão para ser tocado. Acedo à sua ânsia descontrolada. Abro a janela. Respiro o ar morno da manhã de Verão. Tudo é tão belo. A solidão parece-me agora tão perfeitamente correcta. Às três já não chegaste tu.»

 

‘Antes de ti fumava. Por ti deixei de fumar. Devido a ti voltei a fumar. Sem ti, já não fumo.’

The End.

Letter from Diana (# 1.1).

•April 17, 2008 • 1 Comment

     «Faz cinco anos que te foste. O tabaco de enrolar cerrou em todo o seu explendor a mortalha que o mantinha composto, caindo por entre farelos de uma nicotina despojada de sentimento, uma sede por algo que me acalme ainda mais. O vinho tornou-se amargo. O doce sabor, o perfume ardente que me corroia a alma, toda a breve leveza de espírito que me trazia cada vez que a minha garganta sentia o seu deslizar; apagou-se nos meandros da sua curta existência serena. O piano hoje já não toca. Ao invés, acumula o pó de gerações de desgostos que me deixaste na memória.

     As palavras, antes sem forma, agora simplesmente não existem. O pavio da tua débil inocência queimou-se até ao limiar do suportável. Foste-te embora, mas deixaste a saudade comigo.Tal como antes, já nem poderei dizer que alguma vez te amei. O sinal da tua ausência está, porém, marcado a fogo no meu gélido coração. O puro existencialismo carnal que me propuseste a conceber consome-me por dentro, quão térmita no seu covil de madeira. As concubinas da rua também sentem a tua falta. Afinal, têm uma família para alimentar. Ah, sim! Essa coisa que nunca tivemos porque te recusaste a tal.

     Relembro o asno que me propunha a imaginar sempre que apagava a vela e nos íamos deitar. Já nem o sexo apaziguava a tua face ignóbil. Eras puro escárnio humano, podre e desprovido de qualquer moralidade. A monogamia pertencia às espécies inferiores, não era? Espero que a tua nova meretriz te incumba de lavar a loiça. Merece-lo, seu pedaço de inferno infinito.

 

 

     – Merda que são 8 da manhã! Atrasei-me.

     Olho para o meu lado. Lá estás tu. Pelos vistos não passou tudo de um sonho. À minha direita está tabaco de enrolar. No limiar da mesa de cabeceira, encontra-se um copo semi-cheio com um vinho doce e perfumado. À minha frente, o piano ao qual puxei o brilho, anseia pela plenitude da minha composição. A felicidade ainda me acompanha, sempre que me recordo dos meus três prazeres caprichosamente capitalistas. Ressonas. Dorme porco! Às três chegaste tu e não me acordaste.»

 

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(Por favor reler o ‘Letter from Diana (# 1)’ para se compreender totalmente este, visto isto ser uma continuação de tal.)

13602426

•April 11, 2008 • Leave a Comment

(1 hora e 24 minutos. Faz frio na estação. Ele sente-se só. Ele está só. Ele pensa. Comboio chega à hora marcada. Ele entra no comboio. Ele vai sozinho na carruagem. Ele está sozinho.)

 

– 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426… – sussurra na esperança de as paredes não ouvirem.

 

(Telefone toca. Ele atende. Ele é cordial. Ele desliga.)

 

– 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426… – e desta vez a voz sobrepõe-se à timidez.

 

(Comboio chega à estação. 1 hora e 44 minutos. Está inteiramente desamparado. Acelera o passo. Está escuro na rua.)

 

– 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426, 13602426… – grita com a plenitude dos seus pulmões.

 

(Caiem duas lágrimas. Embarga-se a voz)

 

– 13602426… – já não o consegue repetir mais.

 

(Chega a casa. Fecha a porta com toda a força. O que se passou na rua, ficou na rua. Está triste. Está miseravelmente triste. Pára três segundos. Olha em frente.)

 

– Olá mãe. Então o dia, correu-te bem? – ele, sorri.

Letter from Olivier (# 5 – Final Opening Act)

•April 5, 2008 • 1 Comment

«Karl – A minha mãe não pode saber que passei a noite fora de casa.

Olivier – Oh, mas passaste comigo. Dormimos juntos. Além disso a tua mãe gosta de mim. Não se importaria.

(As pessoas passam pela rua. De perto, um portão pintado de azul. Vêem-se vultos vindos de um qualquer concerto, de uma qualquer banda, a uma qualquer hora. É de noite. Está um ambiente gélido. E, no entanto, a temperatura até está amena. Um beijo é dado em público. Corpos olham.)

Karl – Não faças isso!

Olivier – Mas porquê, amor?

Karl – Porque é que me chamas de amor? Eu trato-te por Olivier, certo?

Olivier – Porque te amo. Além disso também te chamo de Karl, quando bem me apetece. Não te posso tratar de amor quando eu quiser também?

Karl – Não.

(Uma espera.)

Olivier – Queres ir ver um filme comigo ao cinema hoje?

(Um outro vulto. Uma mulher, desta vez.)

Vulto – Então Karl, que vais ver? Vídeos connosco ou um filme… com ele?!

(Outra espera. Um olhar mútuo.)

Karl – Vídeos.

(Uma tristeza imensa. Um outro olhar mútuo.)

Olivier – A conversa fica por aqui. Para sempre?

Karl – Não. Apenas por hoje.

Olivier – Não. Eu quero para sempre.

(Olivier afasta-se enquanto chora. Dois vultos riem-se ao longe. Dois outros declaram o seu amor. Dois vultos são felizes. Karl chora. Afinal, amavam-se.)»

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Tenho saudades de muitas coisas. Nem sempre as mato e elas aqui ficam a remoer, e remoer, e remoer… Até ao dia em que tudo acaba e as saudades morrem, pois já nada existe para chorar.

Letter from Jéssica (# 4).

•March 30, 2008 • 5 Comments

«Caro Mr. John,

     Venho por este meio mostrar o repúdio que sinto por si. Sim, eu bem sei que o senhor gosta dos prazeres carnais (e, talvez mesmo vitais), mas tal continua sem justificar tudo o que fez! Na realidade, mal entendo o porquê da sua acção desmensuradamente humana.
     Mas comecemos do início. Tal como eu, o respeitável e honoríssimo cavalheiro, sabia perfeitamente o que sentia por si. Respeito, diria, como que num disparo de fisga. Mas ambos tínhamos consciência que ultrapassava em larga escala tal sentimento. A verdade é que (e neste momento sinto-me envergonhada em admiti-lo) cada vez que estava sozinha consigo sentia aquele aperto no estômago tão característico de jovens amantes. Nunca pedi que me apaziguasse este sentimento detestavelmente ingénuo. Aliás, sempre lhe dei a liberdade total para agir como queria enquanto não estivesse comigo. Desde que, claro, fosse apenas e somente meu e me abraçasse apenas a mim enquanto eu dormia e sonhava com a manhã que viria.
     No entanto, como já deverá ter percebido, no outro dia apercebi-me perfeitamente que se tinha metido de uma forma menos própria com aquela desavergonhada (perdoe-me, porventura, a expressão!) da Miss Jane. Recuso-me, assim sendo, a aceitar tal comportamente vindo da sua parte! Mas, sabe o que mais me aborrece nesta história toda? Foi, em tempos, ter olhado para os seus olhos e pensar que seria sempre meu. Pensar que nunca mudaria. Pensar que o teria sempre a meu lado.

     Batem à porta. A minha mãe manda-me ir deitar. Diz-me que eu sou a sua menina querida e que me adora. Sinto-me invadida por uma sensação de alegria inexoravelmente desmedida. Por momentos lembro-me novamente de si, Mr. John.  Sim, está perdoado, claro! Não importa o que fez com a Miss Jane. Hoje, quando for dormir e lhe pegar nesse seu pêlo de pelúcia, enquanto lhe aperto as orelhas cozidas à mão e sorrio perante as suas costuras gastas pelo tempo, saberei que é apenas meu. Meu, e de mais ninguém. Na realidade, perdoe-me a mim por ter duvidado de si. Deveria saber perfeitamente que a Miss Jane apenas lhe quis dar banho. Nunca teve intenções superiores a isso.

     Abrace-me, meu querido! Tal como ontem, ainda o amo.»

Letter from João (# 3).

•March 1, 2008 • 5 Comments

      «Zás. Trás. Pum. Catrapim. Fecham-se portas. Abrem-se portas. Zás. Trás. Pum. Catrapim. O som inesgotável de uma maquinaria infernal cheia de metropolitanos que nada mais conhecem que o relevo de uma vida acidentada.
      O ruído apodera-se de mim. Ando pelos corredores daquela estação com um vulto ao lado. Não sei o seu nome. Zás! Mais um som. Mais um chicote no ar que se apodera da falta de emoções dos robots que baseiam toda a sua existência num ser inexistente. Mais um cadáver que se junta a este amontoado de tristes passageiros.
      Já te conheci, em tempos. Hoje és mais uma ave de Lisboa que esmorece e cai no mar. Aqui me sento. Aqui me julgo. Trás! Outra estação. Por esta altura já a dor de mil ferrões se apoderou de mim. O rosto que eu avivamente recordava de ti, desfigurou-se há muito, por entre meandros de lágrimas. Estás sentado a meu lado, mas é como se nada existisse. Todo o tempo pára quando ditas as penitências do meu ser entre as palavras melindrosas (e melindradas também) que tão docemente proferes.
      Pum! Levantamo-nos. Amor que foste o primeiro, onde bateu o meu coração. Milhares de corpos sem vida deambulam por entre esquinas e avenidas de uma civilização que já não bate. Tu vais à frente. Eu sigo-te, como sempre o fiz. (Se todas as aves do céu me dessem a despedida…)
      Sais da estação. Não te despedes. ‘Adeus’. Aceno-te com a maior das carícias enquanto deixo cair uma lágrima por ser tão fortemente ignorado. Catrapim! Abro a porta. Estou sozinho (alguma vez deixei de o estar?).

      Zás. Trás. Pum. Catrapim. Morri eu. Morreste tu. Morreu a civilização. O som deixou de se ouvir no dia em que se fechou a última porta. A maquinaria infernal que antes me enlouquecia é agora um amontado de cabos eléctricos outrora automatizados e de peças ferrujentas sem qualquer propósito. Hoje é o dia em que me despeço uma outra vez. Hoje é o dia em que não me irás ouvir, como sempre.»