Letter from João (# 3).

      «Zás. Trás. Pum. Catrapim. Fecham-se portas. Abrem-se portas. Zás. Trás. Pum. Catrapim. O som inesgotável de uma maquinaria infernal cheia de metropolitanos que nada mais conhecem que o relevo de uma vida acidentada.
      O ruído apodera-se de mim. Ando pelos corredores daquela estação com um vulto ao lado. Não sei o seu nome. Zás! Mais um som. Mais um chicote no ar que se apodera da falta de emoções dos robots que baseiam toda a sua existência num ser inexistente. Mais um cadáver que se junta a este amontoado de tristes passageiros.
      Já te conheci, em tempos. Hoje és mais uma ave de Lisboa que esmorece e cai no mar. Aqui me sento. Aqui me julgo. Trás! Outra estação. Por esta altura já a dor de mil ferrões se apoderou de mim. O rosto que eu avivamente recordava de ti, desfigurou-se há muito, por entre meandros de lágrimas. Estás sentado a meu lado, mas é como se nada existisse. Todo o tempo pára quando ditas as penitências do meu ser entre as palavras melindrosas (e melindradas também) que tão docemente proferes.
      Pum! Levantamo-nos. Amor que foste o primeiro, onde bateu o meu coração. Milhares de corpos sem vida deambulam por entre esquinas e avenidas de uma civilização que já não bate. Tu vais à frente. Eu sigo-te, como sempre o fiz. (Se todas as aves do céu me dessem a despedida…)
      Sais da estação. Não te despedes. ‘Adeus’. Aceno-te com a maior das carícias enquanto deixo cair uma lágrima por ser tão fortemente ignorado. Catrapim! Abro a porta. Estou sozinho (alguma vez deixei de o estar?).

      Zás. Trás. Pum. Catrapim. Morri eu. Morreste tu. Morreu a civilização. O som deixou de se ouvir no dia em que se fechou a última porta. A maquinaria infernal que antes me enlouquecia é agora um amontado de cabos eléctricos outrora automatizados e de peças ferrujentas sem qualquer propósito. Hoje é o dia em que me despeço uma outra vez. Hoje é o dia em que não me irás ouvir, como sempre.»

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~ by marlonfrancisco on March 1, 2008.

5 Responses to “Letter from João (# 3).”

  1. Impossível, ÍM-POS-SÍ-VEL, não realçar os toques de Álvaro de Campos aí presentes. Não sei se é elogio, se não, mas deixo aqui o que imediatamente me ocorreu quando li. Still, tem o teu toque.
    *

  2. Gosto principalmente das sensações (é assim que se escreve? xD) auditivas 🙂
    Muito bom.

  3. Só agora é que percebi este texto… ando tão idiota…
    Sem entrar em profundidades (uhuhu…) este texto é um bocado desiludido, ou melhor, estás desiludido.
    And yet, I liked it.

    P.S. Cometi o erro de ir visitar o blog da Anita, não mais o farei. *shivers*

  4. You’re Welcome!
    Eu acabarei por ver o filme (+ tarde ou + cedo), fiquei com a “pulga atrás da orelha”…
    Mas se foste – de facto – tu o vanguardista no que diz respeito à promulgação do filme, que fique aqui escarrapachado isso!

    Cuidado com os teleféricos =)

  5. Morremos todos juntos, por motivos diferentes e com definiçoes de vida opostas.
    Muito bom :}

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