Letter from Jéssica (# 4).

«Caro Mr. John,

     Venho por este meio mostrar o repúdio que sinto por si. Sim, eu bem sei que o senhor gosta dos prazeres carnais (e, talvez mesmo vitais), mas tal continua sem justificar tudo o que fez! Na realidade, mal entendo o porquê da sua acção desmensuradamente humana.
     Mas comecemos do início. Tal como eu, o respeitável e honoríssimo cavalheiro, sabia perfeitamente o que sentia por si. Respeito, diria, como que num disparo de fisga. Mas ambos tínhamos consciência que ultrapassava em larga escala tal sentimento. A verdade é que (e neste momento sinto-me envergonhada em admiti-lo) cada vez que estava sozinha consigo sentia aquele aperto no estômago tão característico de jovens amantes. Nunca pedi que me apaziguasse este sentimento detestavelmente ingénuo. Aliás, sempre lhe dei a liberdade total para agir como queria enquanto não estivesse comigo. Desde que, claro, fosse apenas e somente meu e me abraçasse apenas a mim enquanto eu dormia e sonhava com a manhã que viria.
     No entanto, como já deverá ter percebido, no outro dia apercebi-me perfeitamente que se tinha metido de uma forma menos própria com aquela desavergonhada (perdoe-me, porventura, a expressão!) da Miss Jane. Recuso-me, assim sendo, a aceitar tal comportamente vindo da sua parte! Mas, sabe o que mais me aborrece nesta história toda? Foi, em tempos, ter olhado para os seus olhos e pensar que seria sempre meu. Pensar que nunca mudaria. Pensar que o teria sempre a meu lado.

     Batem à porta. A minha mãe manda-me ir deitar. Diz-me que eu sou a sua menina querida e que me adora. Sinto-me invadida por uma sensação de alegria inexoravelmente desmedida. Por momentos lembro-me novamente de si, Mr. John.  Sim, está perdoado, claro! Não importa o que fez com a Miss Jane. Hoje, quando for dormir e lhe pegar nesse seu pêlo de pelúcia, enquanto lhe aperto as orelhas cozidas à mão e sorrio perante as suas costuras gastas pelo tempo, saberei que é apenas meu. Meu, e de mais ninguém. Na realidade, perdoe-me a mim por ter duvidado de si. Deveria saber perfeitamente que a Miss Jane apenas lhe quis dar banho. Nunca teve intenções superiores a isso.

     Abrace-me, meu querido! Tal como ontem, ainda o amo.»

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~ by marlonfrancisco on March 30, 2008.

5 Responses to “Letter from Jéssica (# 4).”

  1. creepy 😦

  2. Adorável *.*
    Parece uma paixão platónica pelo bonequinho de pelúcia, uma amor incondicional e puro. Adorável 😛

  3. o final é deliciosamente soberbo.

  4. Mesmo apesar de o urso ter estado com Miss Jane durante momentos, apesar de Miss Jane apenas lhe querer dar banho, apesar de o urso não ter sentido nada demais com o banho, tu sentes na pele cada segundo que ele esteve longe. E sejamos sinceros, um banho pode ser muita coisa, nele podem acontecer muitas coisas.
    Até agora, este é o teu melhor post na minha opinião, há algo de Austen por aqui que muito me agrada.

  5. Um urso de pelúcia.. Fenomenal!

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