Letter from Diana (# 1.1).

     «Faz cinco anos que te foste. O tabaco de enrolar cerrou em todo o seu explendor a mortalha que o mantinha composto, caindo por entre farelos de uma nicotina despojada de sentimento, uma sede por algo que me acalme ainda mais. O vinho tornou-se amargo. O doce sabor, o perfume ardente que me corroia a alma, toda a breve leveza de espírito que me trazia cada vez que a minha garganta sentia o seu deslizar; apagou-se nos meandros da sua curta existência serena. O piano hoje já não toca. Ao invés, acumula o pó de gerações de desgostos que me deixaste na memória.

     As palavras, antes sem forma, agora simplesmente não existem. O pavio da tua débil inocência queimou-se até ao limiar do suportável. Foste-te embora, mas deixaste a saudade comigo.Tal como antes, já nem poderei dizer que alguma vez te amei. O sinal da tua ausência está, porém, marcado a fogo no meu gélido coração. O puro existencialismo carnal que me propuseste a conceber consome-me por dentro, quão térmita no seu covil de madeira. As concubinas da rua também sentem a tua falta. Afinal, têm uma família para alimentar. Ah, sim! Essa coisa que nunca tivemos porque te recusaste a tal.

     Relembro o asno que me propunha a imaginar sempre que apagava a vela e nos íamos deitar. Já nem o sexo apaziguava a tua face ignóbil. Eras puro escárnio humano, podre e desprovido de qualquer moralidade. A monogamia pertencia às espécies inferiores, não era? Espero que a tua nova meretriz te incumba de lavar a loiça. Merece-lo, seu pedaço de inferno infinito.

 

 

     – Merda que são 8 da manhã! Atrasei-me.

     Olho para o meu lado. Lá estás tu. Pelos vistos não passou tudo de um sonho. À minha direita está tabaco de enrolar. No limiar da mesa de cabeceira, encontra-se um copo semi-cheio com um vinho doce e perfumado. À minha frente, o piano ao qual puxei o brilho, anseia pela plenitude da minha composição. A felicidade ainda me acompanha, sempre que me recordo dos meus três prazeres caprichosamente capitalistas. Ressonas. Dorme porco! Às três chegaste tu e não me acordaste.»

 

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

(Por favor reler o ‘Letter from Diana (# 1)’ para se compreender totalmente este, visto isto ser uma continuação de tal.)

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~ by marlonfrancisco on April 17, 2008.

One Response to “Letter from Diana (# 1.1).”

  1. As cartas da Diana são as minhas preferidas. É uma lufada de ar fresco, ler pela manhã, escritos como este.

    Um beijinho (para ambos, Marlon e Diana)*

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