Letter from André (# 2.1).

     «Dez anos passaram, Cláudia. Dez anos volveram e tudo mudou. Uma eternidade de distúrbios transformaram-me. Tudo desapareceu. Em quase tudo perdi a inocência infantil daqueles corredores bafios da escola. Já nada é o que era.
    
Porém, tudo se mantém.
    
O mundo avançou, as pessoas evoluiram, eu cresci. (Quem sou eu agora?) E, no fundo, ainda me lembro de ti. Lembro-me dos teus caracóis loiros, Cláudia. Recordo-me do teu perfume, do teu toque suave, do rosado das tuas faces, dos teus lábios delineados, dos teus olhos azuis (dessa imensidão oceânica na qual eu tanto desejava naufragar), do teu nariz firme e arrebitado. As lembranças das tuas sobrancelhas finas assolam-me a memória como o Sol me aquece neste pavimento vazio e frio.

     – Por favor, minha senhora, uma esmola para eu poder comer.

     Não mo deu. Afinal, ela sabia tão bem quanto eu que não era para comida. A barba desgrenhada, as marcas nos braços, o cabelo sujo e oleoso, as roupas rasgadas pelo tempo (as mesmas camisas de flanela da juventude!), o cheiro pestilento e os sapatos cujo uso excessivo já os gastou até atingirem um êxtase de amargura; todos esses e outros traços, evidenciam a minha dependência.
    
Compro uma dose. Injecto-me. Tudo e todos parecem-me, agora, tão perfeitos, tão felizes. O mundo é belo. O meu Mundo de cartão e solidão é belo!

     Faz hoje dez anos, Cláudia. Faz hoje dez anos… e nem as flores que te coloco na campa apagam a dor que, volvida esta eternidade efémera, ainda não morreu. Na lápide lê-se “Filha, neta, sobrinha e amiga amada”. E eu que, também, te amei? Fui esquecido, porventura? Onde foi todo o amor que, um dia, tive por ti? Onde se escondeu toda a alegria que me trazias?

     Volto para o meu canto, no beco da rua de rosas murchas. O cartão é novo. Faz hoje dez anos, amor. O inferno em que vivo tornou-se intemporal. A vida, essa, desapareceu quão sonho idílico. Amo-te, para todo o sempre, amor.»

 

 

Advertisements

~ by marlonfrancisco on May 9, 2008.

5 Responses to “Letter from André (# 2.1).”

  1. Mau dia para ler isto, péssimo dia. Mas está tão sentimental e bom, Marlon :p
    Óptimo trabalho.

    (comentário que já se anda a tornar cliché nos teus textos xD)

  2. Bom texto,
    espero sinceramente que a dose fosse de heroína…
    parece me deveras bem

    por acaso fiz um post sobre heroína no meu blog… ah estas drogas

    mas voltando ao teu texto está espasmicament bom, triste q.b.

  3. ah desculpa mandar outro comment (eu sei que até agradeces haha)
    mas vou por o teu blog no blogroll do meu
    😉

  4. Ok, sou feia e ainda não li nada. Mas vou ler. E gosto de ti – e não é só por teres o cabelo mais giro do universo.

  5. Sinto-me um André. Total e completamente.

    [mudei de rapedsilence.blogspot.com para este]
    Vanessa
    *

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: