Letter from André (# 2).

•February 26, 2008 • 3 Comments

     «Hoje estavas linda. Os teus caracóis louros esvoaçavam por entre os corredores bafios da nossa escola. Falavas, rias, choravas com os teus colegas. A felicidade que emanava de ti dava-me vontade de subir à montanha mais alta, cheirar o malmequer mais trivial, rebolar na relva mais verde, gritar até ficar sem voz e, no fim de toda esta loucura desenfreada, sussurrar baixinho com um riso entre os dentes que realmente és a primeira pessoa de quem gosto.
     Não reparaste em mim (nunca reparas, verdade seja dita). Também não sou propriamente o rapaz idealístico. Os meus óculos embaciados por gerações de uso, o meu ar franzino, o meu nariz prepotente, o meu acne detestável e, talvez até, as minhas camisas de flanela em segunda mão, não fazem de mim o miúdo mais cobiçado da zona. Passaste inclusivé por mim. Cheirei a tua fragância a framboesa, enquanto me deliciava a escutar as tuas doces palavras, embora por breves momentos. Chama-me doido, mas tu alimentas a fraqueza que tenho em mim; dás-me paz e tranquilidade.
     A campainha tocou. Tu pegaste na tua mochila e preparaste-te para entrar em mais uma aula. Senti-me sórdido pelo ódio que me dilacerava por dentro cada vez que o toque soava. Seria mais uma hora e meia que não te poderia ver.

     Sou acordado. ‘Despacha-te’, dizem-me. Por momentos tento reencontrar-te no meu sonho. Visto o melhor fato. Ponho o melhor perfume. Escovo o cabelo como nunca escovei. Entro no carro, ainda com cheiro a novo. À porta de tua casa a tua mãe acolhe-me de braços abertos enquanto derrama lágrimas de sangue. No canto mais escondido da sala estava o teu corpo, lânguido, imune a tudo o que o rodeava, sem respirar, sem se mexer. Agora já não cheiras a framboesa, já não falas docemente. Resta-me somente, voltar para a minha cama e sonhar, novamente, contigo. Resta-me apenas a felicidade de tempos passados.»

 

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Nota: Como já deverão ter reparado (ou não, embora nesse caso me veja obrigado a chamar-vos de parvos), eu estou a tentar criar uma ideia que se baseia na escrita de várias ‘cartas’ (ou desabafos, chamemos-lhe assim) por outras pessoas que não eu. Daí, o que aqui é escrito não pretende retratar aquilo que eu sinto, mas antes aquilo que qualquer pessoa, comum, poderá sentir. Em princípio será uma colectânea de 5 textos (poderá estender-se desde que eu ache devidamente interessante…).

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Letter from Diana (# 1).

•February 24, 2008 • 2 Comments

«Hoje propus-me a pensar no ser humano enquanto um puro existencialista carnal. Acabei por não chegar a qualquer conclusão como me é tão característico nas minhas considerações metafísicias. No entanto, no processo, bebi um golo de vinho tinto, fumei um tabaco de enrolar, toquei no meu piano uma peça de Bach e apreciei o classicismo de toda a realidade nominal.

Estive também com ideias de reflectir sobre a questão fundamental da vida e o porquê da existência da morte. Ainda não encontrei o segredo do espanto mortal quando eu me refiro em conversas sobre o facto de não ter medo do derradeiro fim. Afinal de contas, tal como me disseste é um fardo incontornável. Já que terei que apresentar fobias em toda a minha vida, ao menos que não tenha pavor daquilo que porá fim a esta.

Retomei a consciência, porventura já cansada do rodopio de emoções ensonadas. A carnalidade humana voltou à mente lasciva. Como que num laivo de coerência percebi que o Homem não poderá ser nunca monogamicamente fiel. A fidelidade pertence às espécies inferiores. Enquanto seres superiores somos obrigados a amar todos, a consumir todos (e talvez tudo) e a desejar todos os que nos rodeiam. Como poderei eu ser fiel a uma pessoa se o Mundo me suplica que o ame por inteiro?

Hoje cometi o erro de te amar novamente. Estava a pensar debruçada sobre o cravo da nossa sala opulenta. O pó acentava sobre a cabeceira da mesa que se situava exactamente à esquerda da escrivaninha onde costumas escrever os teus romances (é verdade, mudeia-a de sítio esperando que não te importes). Debrucei-me. Respirei o pó. Senti o teu cheiro a invadir o meu ser. Nessa altura o vinho já não me fazia companhia e o salgado das lágrimas contrastava com a doçura de todo o teu olhar, imaginado. Revolta-me o escárnio individual que tu tão levemente me provocas mas que se acumula como as rugas que agora apresento na testa.

Vou-me deitar, amor. Piada que as palavras actualmente já não tomem a forma que um dia supus virem a tomar na nossa relação. Acredito que fui violada por uma curiosidade infantil ao ver-te na esquina da rua a falares com as meretrizes da vida capitalista. A morte, pela primeira vez começa a criar-me medo. Não direi que te amo, não. Sinto que há muito já perdi esse sentimento nas ruas da desgraça, por entre folhos de amargura. Hoje olho para ti e apenas sei que devo estar onde estou. Eu, o vinho, o piano e o tabaco de enrolar. Lá para as três da manhã chegarás tu.»

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A verdade nem sempre é verosímil. Portanto habitua-te à ideia de que eu nem sempre por ser, tenho, obrigatoriamente, que existir.

Fiona Apple.

•February 21, 2008 • 3 Comments

When the pawn hits the conflicts he thinks like a king
What he knows throws the blows when he goes to the fight

And he’ll win the whole thing before he enter the ring
There’s nobody to batter when your mind is your might
So when you go solo you hold your own hand
And remember that depth is the greatest of heights
And if you know where you stand, then you know where to land
And if you fall it won’t matter ’cause you know that you’re right

Fiona Apple.

(na realidade este poema escrito por ela é o nome do seu segundo álbum de originais)

 

Bem vindos ao maior tormento da humanidade! Dá-se pelo nome de Fiona Apple.

This white wall.

•February 21, 2008 • 2 Comments

Oh, as intempéries de uma parede calva! Oh, aqueles que a sobrepõem de postais inúteis na tentativa de esconder a natureza fria da parede. Oh, o suor de anos a planear a metodologia da estética construtiva. Oh, a fita cola. Oh, o esforço. Oh a tesoura. Zás, trás, clash! Mais um pedaço de fita cortado, mais um postal colado. Oh, a alusão a dias felizes. Oh, a criação da individualidade em mistura com a cultura dos pobres coitados. Oh, os cantos são ressalvados com direito a uso de pastilha elástica do LIDL.

Oh, a parede está íntima. Oh, a parede está presente  na metamorfose dos meus sonhos. Oh, pobre infeliz, como a parede está bela!

Estúpido. Uma parede branca será sempre branca, por mais postais que a cubram.

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You’re all I need.

You’re the only thing I need.

You’re everything I need.

And maybe a little faith would do me good…

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1, 2, 3… Corta!

•February 20, 2008 • 4 Comments

1. – Mentira

2. – Traição

3. – Egoísmo

Os três maiores defeitos do ser humano. Todos nós os temos, pelo menos a um. O mentiroso nunca admitirá a traição e sentirá tantos remorsos que será demasiado altruísta para os demais (mesmo contra a sua própria vontade). O traidor mente com todos os dentes que tem sobre a sua relação exterior, vivendo num mundo à parte sem remorsos de ser o centro do mundo. O egoísta é mentiroso quanto ao que sente e trai-se a si mesmo. Todos nós somos um destes tipos de seres humanos, por mais que queiramos evitar.

Eu sou egoísta! Toda a minha vida tenho mentido relativamente ao que sou; ao que sinto. Traí-me a mim mesmo ao acreditar no impensável e, pior que tudo, ao concretizar aquilo que sabia ser uma fantasia. Hoje tenho a certeza (tal como antes já declarava) que voltarei a cometer o mesmo erro. Busco por um sentimento de vazio que preencha o buraco negro que me rodeia.

Volto a repetir em voz alta: Sou egoísta. Acima de tudo tenho orgulho nisso! Nunca magoei ninguém. (às vezes pergunto-me se ainda serei alguém…)

E tu, qual és?

Por um momento quis a Lua.

•February 19, 2008 • 1 Comment

 

Pôr-do-Sol - Loulé, Algarve

 

Por um momento sonhei com a Lua enquanto esta brilhava bem alto no seu canto solitário. Sonhei com o dia em que tão docemente a tocaria. Pisar, praguejar, gracejar, dançar, pintar, tocar, ouvir, degostar. Quis tudo isso e muito mais da Lua.

Por um momento sonhei que ela me sorria do seu trono espadaúdo. Disse a mim próprio que, um dia, lhe retribuiria um sorriso tímido por mais breve e sincero que fosse. Nunca o fiz!

Por um momento quis que ela descesse do seu pedestal inerte e divino e me abraçasse. Desejei sentir o conforto da sua gravidade a acariciar-me os cabelos enquanto suspirávamos palavras de eterna doçura. Criei fantasias em que prometíamos as mais belas histórias de amor eterno; em que nos prometíamos mutuamente. Suspirei pela conquista de mais um pedaço do céu. Almejei eu também ser feliz na minha, porventura, ingénua ilusão.

 

 

Por um momento quis a Lua. Hoje quero o Sol.

Bolha de sabão.

•February 18, 2008 • 1 Comment

(Bolha de sabão - Baixa) 

 

Dei por mim a pensar: e se o mundo fosse, na realidade uma bolha de sabão e, tal como ela, estivesse prestes a rebentar perante a sua fragilidade ignóbil? E se tudo aquilo que concebemos durante séculos de um existencialismo precoce, fosse destruido com um simples tocar de um dedo exterior? E se tudo aquilo em que acreditamos não passa de uma concepção ridícula de algo inalcançável?

O mundo, enquanto concepção universal, poderá nunca ser uma bolha. No entanto, tenho perfeita noção de que o ‘meu’ mundo é uma bolha e eu sou o seu sabão. Resta saber quem me soprou.

 

 

(ouço a chuva a cair e o marasmo intelectual escorre por entre ruelas pútridas e bafias, dando lugar a uma lavada imagem de um cérebro cansado.)